À PROCURA DA PALAVRA
P. Vitor Gonçalves
DOMINGO DE CRISTO REI Ano B
"Todo aquele que é da verdade
escuta a minha voz.”
Jo 18, 37
Testemunhar a verdade
Há duas histórias sobre a verdade que gostaria aqui de
recordar. A primeira é a de um paraquedista que, desviado pelo vento do lugar
onde devia aterrar, acabou por ficar pendurado numa árvore, junto a um caminho
por onde passava alguém a quem perguntou: “Desculpe,
pode dizer-me onde estou?” Respondeu-lhe o homem: “Está pendurado numa árvore!” “Hum…
você deve ser clérigo!”, comentou o paraquedista. “De facto sou, como adivinhou?”, perguntou o homem. “O que me disse é verdade, mas não me serve
para nada!”, concluiu o paraquedista. A segunda história é a de alguém, que
estando de visita a um mosteiro, teve de sair de noite da sua cela e, ao
voltar, não conseguiu encontrar a sua porta. Para não perturbar o descanso dos
monges, esperou que os primeiros raios do sol lhe indicassem a porta dos seus
aposentos. Não só a verdade precisa de ser eficaz como para a encontrar é
necessária a paciência de esperar a luz.
Jesus revela a Pilatos que a sua missão é dar
testemunho da verdade. O rei indefeso diante do representante do maior poder
sobre a terra não exibe glórias nem faz ameaças. Apresenta-se como servo, nada
impõe, simplesmente testemunha a verdade. A grande verdade de Deus tudo fazer
por amor, até revelar que o seu poder é dar a vida. Por isso é rei sem corte
nem exército, representante de todos os excluídos e esquecidos, porta-voz dos
amordaçados e espezinhados. Não usa a verdade, oferece-a; não faz dela
instrumento de condenação mas de salvação; não se apresenta como seu dono mas
como sua testemunha.
A sede de verdade é sede de justiça. E de todas as
crises que estamos a sofrer, o desprezo da verdade é das que mais nos faz
sofrer. As decisões que lançaram para o futuro encargos incomportáveis para
mascarar as contas do presente, a impunidade de gastos e benefícios que
exploraram o erário público, e o crescente sofrimento das vítimas mais
indefesas, são consequência desta ocultação da verdade. Os Bispos portugueses
na sua última nota pastoral “alertam quem
tem a nobre missão de governar o nosso País para uma justa aplicação das
medidas com vista à recuperação da economia e finanças, em que sejam poupados
os que já vivem sob o peso de asfixiante austeridade. Sentem a importância da
explicação, clara e prévia, das medidas que se tomam e das razões que as
determinam.”
Na escuridão, ou na cegueira de olhos e de pensamento,
dificilmente se alcança a verdade. E uma verdade que não produza mudança e
compromisso é só meia-verdade. Se o segredo é escutar a voz de Jesus, como a
escutamos verdadeiramente? Nas páginas da Bíblia e nas da vida! Não permanece
tão actual o método evangélico de “ver, julgar e agir” que a Acção Católica
assumia e renovava precisamente nesta festa de Cristo-Rei?!
Voz
da Verdade 25.11.2012


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